Memória e Tradição: A trajetória do Carnaval em Vitória da Conquista, das laranjinhas à Miconquista
- Da Redação

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A história do Carnaval em Vitória da Conquista é uma jornada fascinante que se inicia muito antes da formalização dos festejos, enraizada na tradição do Entrudo trazida pelos colonizadores portugueses. No século XIX e início do XX, a folia era marcada por brincadeiras rústicas, onde a população se divertia lançando farinha, água e as famosas laranjinhas de cheiro — esferas de cera coloridas e perfumadas — uns nos outros. Paralelamente, a elite local promovia desfiles de cavaleiros com selas ornamentadas e máscaras, em um formato que ainda não possuía a estética carnavalesca moderna. A grande virada ocorreu em 1927, quando o tipógrafo Waldemar Coutinho, conhecido como "Gato", trouxe de Itabuna a inspiração para fundar o primeiro bloco oficial da cidade, o "Desculpe O Mau Geito". No ano seguinte, esse bloco evoluiu para um cordão organizado pelos irmãos Bacelar, transformando a Praça da Bandeira no epicentro da festa, onde jovens dançavam ao som de flautas e pandeiros em ambientes decorados com bandeiras e balões.

À medida que o século XX avançava, a falta de rádio fazia com que a "mocidade conquistense" dependesse de eletrolas em lojas comerciais para aprender as marchinhas do Rio de Janeiro, mas a partir da década de 1950, a cidade passou a produzir sua própria trilha sonora. Nomes como Bruno Bacelar, Laudionor Brasil e o maestro Francisco Vasconcelos criaram letras e melodias autênticas da terra, enquanto os bailes de salão ganhavam força em residências particulares e no Paço Municipal, já que a cidade ainda não possuía clubes sociais. Surgiram então blocos emblemáticos como "Apaches" e "Filhos de Angola", que incorporavam tradições afro-brasileiras e desfiles temáticos.

Essa configuração tradicional começou a mudar nos anos 80 com a explosão do Axé Music e a influência dos trios elétricos de Salvador. Em 1989, nasceu a Miconquista, o carnaval fora de época que transferiu a folia para abril e se tornou um dos maiores eventos do interior do Brasil, impulsionado por blocos como Massicas e Tôa Tôa. Após um declínio em 2008, a Miconquista foi resgatada em 2023 sob um novo modelo que une a iniciativa privada ao apoio público, destacando-se pela Pipoca Solidária. Atualmente, em 2026, enquanto o Poder Público prioriza o São João como grande festa de massa, o espírito do carnaval sobrevive tanto no brilho da micareta de abril quanto no esforço de blocos independentes liderados por jovens que buscam manter viva a memória dos antigos carnavais de rua no mês de fevereiro.




